Ritmos Urbanos
Em meio urbano, a animação territorial oferece desafios diferentes quando comparado com outros meios e contextos da vida colectiva.
O Plano Urbanístico do Alto do Lumiar, em Lisboa, requalificou uma área de 300ha, realojando milhares de pessoas e projectando condomínios de venda livre, onde se misturam diferentes nacionalidades, etnias e estratos socioeconómicos.
O realojamento traz expectativas de progresso e desenvolvimento mas também traz, à pobreza e exclusão social dos realojados, a ruptura das redes de afecto, sociabilidade e cidadania dos bairros onde moravam e, elas, não só adulteram as identidades locais, as dinâmicas comunitárias conseguidas, como rasgam, sobretudo, a teia da solidariedade.
Os jovens – realojados em território novo sem oferta de respostas institucionais para si –, desocupados e em grupo a “ocupar” a rua, facilmente se tornam motivo de insegurança para o resto da comunidade, pelo que a abordagem directa aos jovens, em espaço natural, na (“sua”) rua, é a alternativa.
O hip-hop salta dos diagnósticos feitos na rua e são então mobilizados recursos, apoios técnicos e logísticos que possibilitam aos jovens organizarem-se de modo a produzirem um cd – apresentado e vendido ao público na Galeria Zé dos Bois, ao Bairro Alto. Neste caminho, os jovens criaram a “Associação TDK – Trabalhos, Direitos e Kapacidades” que, a par com este trabalho, lhes possibilitou não só convites para as festas organizadas por parceiros e entidades locais, como a organização de festas para angariação de fundos e promoção da sua música.
Mais tarde, com o apoio da Associação Freestylaz, os jovens contribuíram activamente para a criação de um «Gabinete de Produção Áudio e Vídeo» onde aprenderam ou aprofundaram conhecimentos em software musical e vídeo, contexto que proporcionou a organização de residências artísticas com outros músicos e colectivos hip-hop, não só locais como de outras margens da Área Metropolitana de Lisboa, e que tiveram como resultado a produção de um novo cd, um videoclip, vários blogues e um documentário em fase de edição.
Já este ano de 2008, integram o programa cultural “Lisboa Mistura” a ter lugar nas salas do São Jorge.
Por outro lado, tendo sempre como preocupação o desenvolvimento de competências e a integração socioprofissional e comunitária das pessoas, alguns destes jovens foram chamados a participar noutras áreas de actividade do Programa K’CIDADE, integrando workshops de formação para animação social, desportiva e digital de grupos. Alguns deles foram integrados em instituições locais trabalhando para os seus pares ou a animar projectos de OTL para crianças.
Em síntese, o trabalho de mobilização de jovens e de diagnóstico em espaço natural, resultou na constituição e associação de um grupo a participar activamente na organização de actividades ligadas às artes e à animação comunitária, e imprime hoje novas dinâmicas territoriais que aproximam e põem em relação população, comunidade, instituições e técnicos, e devolve novos sinais ao “sentimento de insegurança” de comunidades que se vêem forçadas ao encontro pelos desígnios do progresso e desenvolvimento urbano, social e económico.
João Queiroz
Técnico de Desenvolvimento Comunitário
K’CIDADE – Programa de Desenvolvimento Comunitário Urbano
A VIDA …MEDIADA
“Era hoje. Eusébia não dormira. Doía-lhe o corpo e a alma. Não sabia como mas a sova que apanhara fez-se raiva e espanto. Espanto consigo. “Vou falar com a doutora. Tenho tanta vergonha mas ela ouve-me”. E foi. Os maus tratos do seu homem iam acabar e os filhos haviam de ir para a escola e para o centro comunitário. “Como posso livrar-me dele. Ele tem três mulheres e chega aqui e vá de me surrar. Mas como é que saio de casa para trabalhar!? Não tenho os documentos todos, não sei onde devo ir, não conheço ninguém que me ajude! A doutora, a doutora ajuda… eu vou a qualquer lado, mas não sei onde e o que devo dizer”.
Paula tentou encontrar alguma luz naquela embrulhada história da Eusébia. Os seus olhos pisados olhavam-na com um misto de desesperança e de confiança. Vamos lá. Fez os contactos telefónicos para encontrar suporte para as hipóteses de soluções. Vamos priorizar, por onde começar, que ponta puxar deste novelo enrolado!? E foi uma manhã, um dia, muitos dias após aquela decisão da Eusébia.
As horas de limpeza que vai fazer, os papéis que tratou para receber a sua regularização, a ida à Segurança Social com a Paula a seu lado a dizer o que ela não sabia como, a ajuda do Banco Alimentar, tudo lhe dava uma esperança nova. E até já nem batia no Marcelo, filho daquele homem que ela pensava que devia aceitar sempre como se fosse parte do seu destino. E até os filhos parece que têm “estrelas” de esperança no olhare não aquela ar perdido e esgazeado.
E a doutora arranjou “aquilo” da formação parental. Eusébia gosta de ir lá de manhã e falar com as outras mulheres e com a Fernanda, a formadora, que parece à Eusébia uma senhora da televisão e que lhes diz coisas tão simples e tão bonitas. E, afinal, outras mulheres também têm vidas muito más. Sente-se alentada e acompanhada…
A pouco e pouco, ressurge-se…”
Associação Olho Vivo
Projecto TEIAS





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